Com frequência, somos bombardeados por notícias nos jornais e publicações nas redes sociais com imagens que cortam o coração: terreiros de Candomblé e Umbanda depredados, imagens sagradas despedaçadas, xingamentos públicos ou aquela discriminação velada e silenciosa que afasta praticantes de seus ambientes de trabalho e estudo. Quase sempre, o termo utilizado para definir esses atos de violência é “intolerância religiosa”.
No entanto, estudiosos, juristas e, principalmente, as lideranças do axé vêm batendo em uma tecla urgente: essa definição é insuficiente. Ela não dá conta da gravidade do problema. O termo correto, jurídico e historicamente necessário é Racismo Religioso.
Mas você já parou para pensar na diferença real entre esses dois conceitos? Por que a escolha da palavra importa tanto?
O que é a Intolerância?
A intolerância religiosa, em sua raiz conceitual, ocorre quando há uma rejeição ou desentendimento entre diferentes crenças que partem de um pé de igualdade histórica e social. É o preconceito pelo simples fato de o outro professar uma fé diferente, como uma disputa teológica entre duas religiões dominantes onde uma não aceita o dogma da outra. Na intolerância, o debate é sobre a doutrina.
O peso do Racismo Religioso
Por outro lado, o Racismo Religioso vai muito mais fundo, em camadas que a palavra “intolerância” tenta camuflar. Ele não ataca apenas a teologia ou o rito; ele ataca o corpo, a cor e a origem étnica de quem pratica.
As religiões de matriz africana foram construídas, preservadas e lideradas por homens e mulheres negros. Elas foram o quilombo espiritual que manteve a dignidade de povos escravizados. Durante séculos no Brasil, criminalizar o toque dos tambores, os cantos aos Orixás, as roupas brancas e o culto aos ancestrais não era uma “discussão teológica” — era uma ferramenta direta do Estado e da elite para desumanizar, silenciar e controlar a população negra.
Quando o toque do tambor era caso de polícia no pós-abolição, o alvo não era o sagrado; era o negro que o cultuava.
Uma estrutura que se repete
Dito isto, precisamos nos fazer uma pergunta desconfortável: o ódio direcionado aos terreiros hoje é realmente uma divergência sobre a palavra de Deus?
A resposta é não. Não se trata de debate teológico sobre quem está “certo” ou “errado” perante o Criador. É a sobrevivência de uma estrutura colonial que recusa aceitar a herança cultural, a filosofia, a alta intelectualidade e a estética que vieram do continente africano.
Quando alguém discrimina um fio de contas no pescoço de um iniciado, se incomoda com o uso do ojá (turbante) ou associa as divindades do axé ao “mal”, o alvo do preconceito não é o rito em si, mas a ancestralidade negra que aquele símbolo carrega. Por que as vestes litúrgicas de matrizes europeias ou orientais são vistas com respeito e curiosidade, enquanto as nossas são demonizadas? É aí que o racismo se revela.
Para refletir: Se o preconceito muda de tom e de violência dependendo da cor e da origem da religião, então o problema nunca foi a fé. O problema é a raça.
O caminho para a cura histórica
Entender essa diferença sutil, mas brutal, é o primeiro passo para que a sociedade possa combater a violência de forma eficaz. Chamar o problema pelo nome correto tira o manto da invisibilidade e nos obriga a encarar o passado e o presente de frente.
O respeito à liberdade de culto está garantido na Constituição, mas o reconhecimento e o combate ao racismo religioso é o que nos permite, finalmente, curar feridas históricas. É isso que garante que as nossas crianças possam andar na rua com suas contas de proteção sem medo, e que o axé de cada terreiro continue sendo transmitido para as próximas gerações com a dignidade, o orgulho e, acima de tudo, a paz que lhes é de direito.
Espaço de Diálogo: Este é um tema que exige de todos nós profunda reflexão. Você já tinha parado para pensar na diferença entre tolerar uma fé e combater o racismo estrutural que ataca os nossos terreiros?
Se você concorda que o conhecimento é a maior arma contra o preconceito, deixe sua opinião nos comentários. Vamos construir juntos um espaço de diálogo seguro, consciente e de muito respeito. Axé!